F2 · Aulas 17–18

Reorganização da economia industrial no Brasil e no mundo

Brasil: desindustrialização prematura e reprimarização da economia

A indústria caiu de cerca de 27% do PIB nos anos 1980 para pouco mais de 10%, sem que o país tivesse alcançado renda alta. Causas: abertura abrupta nos anos 1990, juros elevados, câmbio valorizado no boom das commodities, custo Brasil e concorrência chinesa.

Aprofundar

A desindustrialização prematura é um fenômeno atípico: nas economias desenvolvidas, a queda da participação industrial no PIB e no emprego ocorreu depois de o país enriquecer, num processo de migração natural para serviços de alta produtividade. No Brasil, ela veio cedo demais, antes de a renda per capita atingir o padrão dos países ricos, o que significa que a indústria perdeu peso sem que houvesse uma nova base produtiva capaz de sustentar o crescimento. É bom não confundir dois planos: existe uma perda relativa — a indústria encolhe como fração do PIB porque o setor de serviços e o agronegócio crescem mais — e uma perda absoluta, com fechamento de fábricas e queda real da produção manufatureira em vários períodos.

Reprimarização da economia

Aumento do peso de produtos primários — soja, minério de ferro, petróleo, carne — na pauta de exportações, que hoje superam os manufaturados. Torna o país vulnerável à oscilação dos preços internacionais e reduz o valor agregado e a geração de empregos qualificados.

Aprofundar

A reprimarização não significa que a indústria brasileira deixou de existir, mas sim que ela perdeu participação relativa na economia e nas exportações, enquanto os produtos básicos ganharam espaço — fenômeno ligado à doença holandesa e à desindustrialização precoce. O conceito ganhou força nos anos 2000, impulsionado pela demanda chinesa por commodities, pela valorização cambial e pelo baixo custo relativo de produzir commodities no Brasil.

Para responder bem, diferencie reprimarização de simples crescimento do agronegócio: o primeiro termo é relativo e estrutural, o segundo pode ocorrer sem alterar a composição da pauta exportadora, e confundir os dois é o erro mais comum entre candidatos.

Reações à desindustrialização no mundo

Retomada de políticas industriais ativas: reshoring e nearshoring — trazer de volta ou aproximar a produção —, subsídios estratégicos como o CHIPS Act americano e o Green Deal europeu, e protecionismo tarifário, sobretudo contra a China. Reforçados após a pandemia, que expôs a fragilidade das cadeias longas.

Aprofundar

As reações à desindustrialização surgem da constatação de que a perda de peso da indústria de transformação no PIB e no emprego — fenômeno comum a economias desenvolvidas desde os anos 1970 — deixou de ser apenas uma transição “natural” para o setor de serviços e passou a ser tratada como risco estratégico, sobretudo após a crise de 2008 e a pandemia de covid-19, que escancararam a dependência de cadeias globais concentradas em poucos países. O conceito-chave é o de política industrial ativa, que rompe com o consenso neoliberal das décadas de 1980-90: o Estado volta a intervir com subsídios, crédito direcionado, compras públicas e incentivos fiscais para recompor capacidades produtivas em setores considerados críticos, como semicondutores, farmacêutico, baterias, veículos elétricos e defesa.

As novas disputas econômicas globais

Transição de uma ordem unipolar para uma multipolar, com a ascensão da China e do Sul Global. As disputas envolvem tecnologia, semicondutores, moedas de reserva, rotas comerciais e transição energética — e se organizam em fóruns e blocos concorrentes.

Aprofundar

As novas disputas econômicas globais não se resumem à rivalidade militar entre potências, mas a uma corrida por controle de cadeias produtivas estratégicas, em que quem domina insumos e tecnologias-chave impõe custos aos concorrentes. O caso mais emblemático é o dos semicondutores: os EUA aprovaram o CHIPS and Science Act (2022), oferecendo bilhões em subsídios para repatriar fábricas, e impuseram controles de exportação que restringem o acesso da China a máquinas de litografia avançada e a chips de alta performance. A China respondeu com investimentos estatais massivos e restrições à exportação de gálio e germânio, insumos críticos para a indústria eletrônica.

Esse padrão se repete em outras frentes: na transição energética, a China domina a refinação de terras raras e a produção de painéis solares e baterias, enquanto a Europa tenta proteger sua indústria com o mecanismo de ajuste de carbono na fronteira; no sistema monetário, cresce o uso de moedas locais em acordos comerciais, como o comércio sino-brasileiro liquidado em yuan e real, reduzindo a dependência do dólar; e nas rotas comerciais, a disputa pelo Ártico e por portos estratégicos, como o de Gwadar no Paquistão, revela a dimensão geopolítica do comércio. Esses conflitos se institucionalizam em blocos concorrentes — G7, BRICS ampliado, OCDE, OMC enfraquecida —, e o que está em jogo é a própria capacidade de definir padrões técnicos, regular dados e controlar infraestrutura crítica.

G7

Grupo das grandes economias ocidentais desenvolvidas: EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá, mais a União Europeia. Criado nos anos 1970, coordena políticas econômicas e geopolíticas do bloco liderado pelos Estados Unidos. Sua fatia no PIB mundial vem caindo.

Aprofundar

O G7 funciona, na prática, como um clube político que tenta coordenar as economias mais industrializadas do planeta, e não como uma instituição formal com tratado ou poder de decisão vinculante — suas resoluções são compromissos voluntários entre chefes de Estado e ministros de finanças. Surgiu da crise do petróleo de 1973 e da recessão que se seguiu, quando os EUA articularam encontros informais (Rambouillet, 1975) para alinhar respostas conjuntas ao choque energético e à instabilidade monetária. Ao longo das décadas, ampliou a agenda para segurança, clima, dívida de países pobres e regulação financeira, mas manteve o traço original: é um espaço de coordenação do Ocidente rico, com peso decisivo do dólar e das instituições de Bretton Woods.

A queda relativa de sua participação no PIB global — de cerca de 65% nos anos 1990 para algo em torno de 40% — é justamente a chave para entender as novas disputas econômicas: o G7 tenta reagir à ascensão da China, que representa quase 19% da riqueza mundial e articula alternativas como os BRICS e a Iniciativa Cinturão e Rota. O caso mais concreto é a resposta à crise de 2008 e, depois, à pandemia: o G7 pressionou por estímulos fiscais coordenados, porém a efetividade ficou limitada porque as maiores decisões comerciais e de investimento já passavam por Pequim, e não apenas por Washington, Tóquio ou Berlim.

G20

Reúne as 19 maiores economias mais União Europeia e União Africana, somando cerca de 80% do PIB mundial. Ganhou centralidade após a crise de 2008, quando o G7 se mostrou insuficiente. O Brasil integra o grupo e presidiu a cúpula de 2024, no Rio de Janeiro.

Aprofundar

O G20 nasceu em 1999 como fórum de ministros de Finanças e presidentes de Bancos Centrais, ainda em resposta à crise asiática de 1997, mas só se tornou cúpula de chefes de Estado em 2008, quando a quebra do Lehman Brothers expôs a incapacidade do G7 — EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá — de coordenar sozinho a maior recessão desde 1929. Sua lógica é a de um diretório informal: reúne economias sistemicamente relevantes, sem personalidade jurídica nem poder de decisão vinculante, o que explica tanto sua flexibilidade quanto sua fragilidade. Seus membros vão de potências consolidadas (EUA, Alemanha, Japão) a emergentes de peso regional (Arábia Saudita, África do Sul, Indonésia, Argentina), além de países que acumulam tensões geopolíticas, como Rússia e China.

Um caso concreto dessa disputa aparece na reforma das instituições de Bretton Woods: o G20 pressiona por maior quota de voto no FMI e no Banco Mundial para emergentes, mas os EUA mantêm poder de veto sobre decisões de 85% do capital, o que trava avanços.

BRICS

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, ampliado a partir de 2024 com Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes e outros. Busca maior peso das economias emergentes na governança global e a redução da dependência do dólar. É heterogêneo e marcado por rivalidades internas, como entre Índia e China.

Aprofundar

Os BRICS nascem em 2006 como acrônimo criado pelo economista Jim O'Neill, do Goldman Sachs, para designar economias emergentes de rápido crescimento, e se transformam em arranjo político-diplomático a partir de 2009, com a primeira cúpula em Ecaterimburgo; sua lógica não é a de um bloco de integração nos moldes da União Europeia, com regras vinculantes e livre circulação, mas a de uma coalizão flexível que articula interesses comuns sem exigir alinhamento automático, funcionando como plataforma para reformar instituições como o FMI e o Banco Mundial, historicamente dominadas por Estados Unidos e Europa, além de viabilizar instrumentos próprios, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), sediado em Xangai, e o Arranjo Contingente de Reservas, voltados a financiar infraestrutura e reduzir a exposição ao dólar.

O exemplo concreto mais eloquente dessa ambição é o esforço de desdolarização: a China ampliou acordos de swap em yuan com diversos parceiros, e as transações comerciais entre membros passaram a ser liquidadas parcialmente em moedas nacionais, enquanto o NDB financia projetos em infraestrutura energética e logística em países do Sul Global, evidenciando que o grupo busca criar circuitos financeiros paralelos à ordem hegemônica.

A expansão aprovada na cúpula de Joanesburgo, em 2023, com a entrada efetiva de Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos em janeiro de 2024, reforça o caráter heterogêneo do arranjo: reúne países com sistemas políticos antagônicos, níveis de desenvolvimento díspares e rivalidades geopolíticas evidentes, como a disputa sino-indiana na fronteira do Himalaia e a competição por influência no Índico, o que limita a coesão e revela a distância entre o discurso de nova ordem multipolar e a prática, marcada por divergências internas e pela dependência comercial que muitas dessas economias ainda mantêm em relação aos mercados ocidentais e à própria China.

Novo Banco de Desenvolvimento e Arranjo Contingente de Reservas

Instituições criadas pelos BRICS em 2014, sediadas em Xangai. O NBD financia infraestrutura e desenvolvimento sustentável como alternativa ao Banco Mundial; o Arranjo Contingente de Reservas oferece socorro em crises cambiais, cumprindo papel análogo ao do FMI, sem as mesmas condicionalidades.

Aprofundar

O ponto de partida para entender essas instituições é a insatisfação dos BRICS com a governança financeira herdada de Bretton Woods, em que FMI e Banco Mundial mantêm cotas de voto desproporcionais ao peso econômico dos emergentes — os EUA seguem com poder de veto no FMI, e reformas de cotas avançam a passos lentos desde 2010. O NBD e o ACR funcionam, assim, como um seguro mútuo: em vez de recorrer a Washington, os sócios constroem capacidade própria de financiamento e de defesa cambial. O exemplo mais citado é o ACR, um pool de reservas inicialmente de US$ 100 bilhões, com a China aportando a maior fatia e o Brasil entrando com US$ 18 bilhões; em caso de crise no balanço de pagamentos, o país-membro pode sacar recursos sem precisar assinar cartas de intenção nem adotar pacotes de austeridade, o que explica o apelido de "FMI dos BRICS".

Some-se a isso a atuação do NBD, que já aprovou projetos de energia renovável, saneamento e transporte no Brasil e em outros emergentes, além de o banco ter ampliado seu quadro de membros — Bangladesh, Egito e Emirados Árabes, por exemplo —, sinalizando uma institucionalidade que não se limita ao grupo original.