Diversidade étnico-religiosa
Berço das três religiões monoteístas — judaísmo, cristianismo e islamismo —, reúne árabes, persas, turcos, curdos e judeus, entre outros. As fronteiras traçadas pelas potências europeias após a Primeira Guerra ignoraram essa diversidade, criando Estados artificiais e conflitos duradouros.
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A diversidade étnico-religiosa do Oriente Médio é, antes de tudo, um dado estrutural dessa região, e não um detalhe secundário: trata-se do espaço onde convivem, há milênios, grupos que se organizam simultaneamente por critérios linguísticos, religiosos e tribais, o que faz com que a palavra "árabe", por exemplo, frequentemente usada como sinônimo de "muçulmano" no senso comum, designe na verdade um grupo étnico-linguístico, e não uma religião — existem árabes cristãos (como os coptas no Egito e os maronitas no Líbano), assim como existem muçulmanos que não são árabes (persas no Irã, turcos na Turquia e curdos, povo de origem indo-europeia que, apesar de majoritariamente sunita, nunca teve um Estado próprio reconhecido).
A essa pluralidade soma-se a divisão interna do próprio islã entre sunitas e xiitas, cuja origem remonta à disputa sucessória após a morte de Maomé e que hoje se expressa em rivalidades geopolíticas concretas, como o eixo Irã-Síria-Hezbollah (xiita) contra Arábia Saudita e monarquias do Golfo (sunitas). O exemplo mais didático para entender a artificialidade das fronteiras é o Acordo Sykes-Picot (1916), negociado em segredo entre britânicos e franceses e depois ratificado pelo sistema de mandatos da Liga das Nações: ele dividiu a região em áreas de influência colonial segundo os interesses europeus, ignorando completamente a distribuição real dos povos — o resultado é que o povo curdo ficou esquartejado entre Turquia, Iraque, Irã e Síria, e o Iraque foi montado colando grupos rivais (árabes sunitas, árabes xiitas e curdos) dentro de um mesmo território, com um monarca estrangeiro imposto pelos britânicos.
Essa combinação de diversidade real com fronteiras artificiais explica por que, após a saída das potências coloniais, o vácuo de poder foi preenchido por ditaduras que usavam a força para manter a coesão, e por que a queda de regimes como o de Saddam Hussein (2003) ou de Bashar al-Assad expôs, de imediato, fissuras étnico-religiosas explosivas, com curdos, sunitas e xiitas disputando o controle do território — em boa medida, o que se vê na Síria e no Iraque atuais é o desenho de Sykes-Picot sendo contestado na prática.
Dominar essa distinção — diversidade real versus fronteira imposta — é, portanto, o que permite interpretar com segurança desde uma questão objetiva sobre Sykes-Picot até uma redação do ENEM sobre refugiados sírios, tema que costuma unir diversidade étnico-religiosa, conflitos e geopolítica em uma única proposta.
Oriente Médio: vertentes do islamismo
Sunitas, cerca de 85-90% dos muçulmanos, majoritários na Arábia Saudita, no Egito e na Turquia. Xiitas, maioria no Irã, no Iraque e no Bahrein, com forte presença no Líbano. A divisão remonta à sucessão de Maomé e estrutura hoje a rivalidade entre Arábia Saudita e Irã.
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A cisão que originou sunitas e xiitas não foi apenas política, mas também doutrinária, e entender esse ponto é decisivo para não reduzir a questão a uma simples disputa de poder. Com a morte do Profeta Maomé em 632, parte da comunidade defendia que a liderança deveria seguir a tradição tribal, elegendo um membro respeitado da tribo dos coraixitas — posição que deu origem aos sunitas, que reconhecem legitimidade nos primeiros califas eleitos. Outro grupo, porém, sustentava que a autoridade deveria permanecer na família do Profeta, passando a Ali, seu primo e genro, e depois aos seus descendentes, os imãs — posição que originou os xiitas, que veem nos imãs guias espirituais infalíveis.
Além da sucessão, há diferenças na prática religiosa: os xiitas valorizam a figura do aiatolá e a peregrinação a Karbala, no Iraque, onde foi morto Hussein, neto de Maomé, episódio central da memória xiita.