F2 · Aulas 47–48

Oriente Médio: região de conflitos

Diversidade étnico-religiosa

Berço das três religiões monoteístas — judaísmo, cristianismo e islamismo —, reúne árabes, persas, turcos, curdos e judeus, entre outros. As fronteiras traçadas pelas potências europeias após a Primeira Guerra ignoraram essa diversidade, criando Estados artificiais e conflitos duradouros.

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A diversidade étnico-religiosa do Oriente Médio é, antes de tudo, um dado estrutural dessa região, e não um detalhe secundário: trata-se do espaço onde convivem, há milênios, grupos que se organizam simultaneamente por critérios linguísticos, religiosos e tribais, o que faz com que a palavra "árabe", por exemplo, frequentemente usada como sinônimo de "muçulmano" no senso comum, designe na verdade um grupo étnico-linguístico, e não uma religião — existem árabes cristãos (como os coptas no Egito e os maronitas no Líbano), assim como existem muçulmanos que não são árabes (persas no Irã, turcos na Turquia e curdos, povo de origem indo-europeia que, apesar de majoritariamente sunita, nunca teve um Estado próprio reconhecido).

A essa pluralidade soma-se a divisão interna do próprio islã entre sunitas e xiitas, cuja origem remonta à disputa sucessória após a morte de Maomé e que hoje se expressa em rivalidades geopolíticas concretas, como o eixo Irã-Síria-Hezbollah (xiita) contra Arábia Saudita e monarquias do Golfo (sunitas). O exemplo mais didático para entender a artificialidade das fronteiras é o Acordo Sykes-Picot (1916), negociado em segredo entre britânicos e franceses e depois ratificado pelo sistema de mandatos da Liga das Nações: ele dividiu a região em áreas de influência colonial segundo os interesses europeus, ignorando completamente a distribuição real dos povos — o resultado é que o povo curdo ficou esquartejado entre Turquia, Iraque, Irã e Síria, e o Iraque foi montado colando grupos rivais (árabes sunitas, árabes xiitas e curdos) dentro de um mesmo território, com um monarca estrangeiro imposto pelos britânicos.

Essa combinação de diversidade real com fronteiras artificiais explica por que, após a saída das potências coloniais, o vácuo de poder foi preenchido por ditaduras que usavam a força para manter a coesão, e por que a queda de regimes como o de Saddam Hussein (2003) ou de Bashar al-Assad expôs, de imediato, fissuras étnico-religiosas explosivas, com curdos, sunitas e xiitas disputando o controle do território — em boa medida, o que se vê na Síria e no Iraque atuais é o desenho de Sykes-Picot sendo contestado na prática.

Dominar essa distinção — diversidade real versus fronteira imposta — é, portanto, o que permite interpretar com segurança desde uma questão objetiva sobre Sykes-Picot até uma redação do ENEM sobre refugiados sírios, tema que costuma unir diversidade étnico-religiosa, conflitos e geopolítica em uma única proposta.

Oriente Médio: vertentes do islamismo

Sunitas, cerca de 85-90% dos muçulmanos, majoritários na Arábia Saudita, no Egito e na Turquia. Xiitas, maioria no Irã, no Iraque e no Bahrein, com forte presença no Líbano. A divisão remonta à sucessão de Maomé e estrutura hoje a rivalidade entre Arábia Saudita e Irã.

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A cisão que originou sunitas e xiitas não foi apenas política, mas também doutrinária, e entender esse ponto é decisivo para não reduzir a questão a uma simples disputa de poder. Com a morte do Profeta Maomé em 632, parte da comunidade defendia que a liderança deveria seguir a tradição tribal, elegendo um membro respeitado da tribo dos coraixitas — posição que deu origem aos sunitas, que reconhecem legitimidade nos primeiros califas eleitos. Outro grupo, porém, sustentava que a autoridade deveria permanecer na família do Profeta, passando a Ali, seu primo e genro, e depois aos seus descendentes, os imãs — posição que originou os xiitas, que veem nos imãs guias espirituais infalíveis.

Além da sucessão, há diferenças na prática religiosa: os xiitas valorizam a figura do aiatolá e a peregrinação a Karbala, no Iraque, onde foi morto Hussein, neto de Maomé, episódio central da memória xiita.

O petróleo

A região concentra grande parte das reservas provadas mundiais, com extração de baixo custo. O petróleo financiou Estados rentistas do Golfo, atraiu a atenção permanente das potências e sustenta a Opep. A dependência do óleo motiva hoje planos de diversificação, como o saudita Visão 2030.

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O petróleo é a variável que amarra economia, política e geopolítica do Oriente Médio, pois a região detém cerca de metade das reservas provadas do planeta, concentradas sobretudo na Bacia do Golfo Pérsico, onde a rocha-reservatório é muito porosa e os poços são de fácil acesso, o que faz o custo de extração por barril ser dos mais baixos do mundo — em alguns campos sauditas e kuwaitianos, poucos dólares, contra dezenas em águas profundas ou no pré-sal. Esse diferencial transformou o Golfo em peça central da geopolítica energética: quem controla a produção influencia o preço global, e por isso a região atraiu interesses britânicos, depois estadunidenses, e hoje também chineses, russos e indianos.

Para entender o conceito, pense na renda petrolífera como um enorme fluxo de capitais que financia desde arranha-céus em Dubai até programas sociais e armamentos, mas também gera a chamada “maldição dos recursos”: economias pouco diversificadas, dependentes de um preço volátil e com mão de obra nacional pouco absorvida.

Oriente Médio: áreas de extração de combustíveis fósseis

As maiores reservas estão em torno do Golfo Pérsico: Arábia Saudita — com o campo gigante de Ghawar —, Irã, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes. O escoamento depende do estreito de Ormuz, o que transforma qualquer tensão local em risco energético global.

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O conceito central aqui é o da renda petrolífera e sua concentração geológica: o Golfo Pérsico abriga cerca de metade das reservas provadas do planeta porque reúne, numa mesma bacia sedimentar, rochas geradoras ricas em matéria orgânica, reservatórios porosos e capas selantes eficientes, além de campos gigantes e supergigantes — expressão técnica para jazidas com mais de 500 milhões de barris recuperáveis. Some-se a isso o custo de extração entre os mais baixos do mundo, o que dá a esses países enorme peso na OPEP e na formação dos preços internacionais. Como exemplo concreto, vale lembrar que a Arábia Saudita sozinha detém a maior capacidade ociosa de produção do mundo, usada como válvula de ajuste quando há choques de oferta, enquanto o Catar, pequeno em território, tornou-se potência em gás natural com o campo North Dome, compartilhado com o Irã.

A dimensão estratégica aparece também nos oleodutos que tentam contornar Ormuz, como o que liga a Arábia Saudita ao mar Vermelho e o de Baku–Tbilisi–Ceyhan, no Cáucaso, rotas criadas justamente para reduzir a dependência do estreito.

O papel das potências ocidentais

Do Acordo Sykes-Picot (1916), que repartiu o Oriente Médio entre França e Inglaterra, à Declaração Balfour e aos mandatos. Depois, apoio a monarquias, o golpe no Irã em 1953 contra Mossadegh, a aliança com Israel, a Guerra do Golfo (1991) e a invasão do Iraque (2003), que desestabilizou a região e favoreceu o Estado Islâmico.

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O papel das potências ocidentais no Oriente Médio vai muito além de episódios isolados: trata-se de uma lógica estrutural de domínio indireto, em que Estados Unidos, Reino Unido e França moldaram fronteiras, regimes e economias conforme seus interesses estratégicos e energéticos. O conceito-chave aqui é o imperialismo tardio ou neocolonialismo, no qual não se ocupa formalmente o território, mas se controlam governos, rotas de petróleo e o equilíbrio militar regional.

Outro caso é a Guerra Fria Árabe: Washington e Moscou patrocinaram golpes e guerras por procuração, como no Líbano (1975-1990) e no Afeganistão (1979-1989), alimentando o fundamentalismo que depois se voltaria contra o próprio Ocidente.

Disputas pela hegemonia regional

Três polos rivalizam pela liderança: Arábia Saudita (sunita e árabe), Irã (xiita e persa) e Turquia (sunita e neo-otomana), com Israel como ator militar decisivo. A rivalidade se expressa em guerras por procuração no Iêmen, na Síria e no Líbano.

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A hegemonia regional no Oriente Médio não se decide apenas por poderio militar, mas por legitimidade religiosa, peso demográfico e capacidade de projetar influência sobre Estados frágeis. A Arábia Saudita apoia-se no controle dos lugares santos de Meca e Medina e na renda petrolífera para se apresentar como líder natural do mundo sunita, enquanto o Irã, isolado desde 1979, construiu uma rede de milícias aliadas — Hezbollah, no Líbano, houthis, no Iêmen, e as Forças de Mobilização Popular, no Iraque — que lhe garante influência sem confronto direto. A Turquia, por sua vez, articula o legado otomano com um pragmatismo de potência média, intervindo militarmente na Síria e exercendo papel decisivo na Líbia, onde sustenta diretamente o Governo de Acordo Nacional (GNA), sediado em Trípoli, contra as forças do general Haftar, respaldadas por Emirados Árabes Unidos, Egito e Rússia.

Esse é o exemplo mais claro de guerra por procuração: dois blocos regionais financiam e armam lados opostos num conflito civil, transformando o território líbio em tabuleiro da rivalidade.