F2 · Aulas 3–4

Produção do espaço no capitalismo

A Revolução Industrial e a construção do meio técnico

Milton Santos distingue três meios: o natural, anterior à técnica dominante; o técnico, inaugurado pela Revolução Industrial com máquinas, ferrovias e cidades fabris; e o técnico-científico-informacional, do pós-guerra. Cada meio produz uma espacialidade distinta.

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A Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra do século XVIII, não foi apenas um conjunto de inovações técnicas, mas o marco que transformou a própria lógica de organização do espaço geográfico, pois ao substituir a manufatura pela maquinofatura e a energia humana ou animal pela máquina a vapor, ela separou definitivamente o local de produção do local de consumo e impôs uma nova racionalidade ao território. Com as fábricas concentrando trabalhadores, capital e matérias-primas, surgiram as cidades industriais e regiões especializadas, enquanto as ferrovias e depois os telégrafos encurtaram distâncias, integrando mercados nacionais e coloniais em escala mundial; o espaço deixou de ser apenas suporte natural para se tornar meio técnico, isto é, um território progressivamente equipado por objetos artificiais que orientam e condicionam a vida social.

Formação da antiga Divisão Internacional do Trabalho

Consolidada no século XIX: os países centrais industrializados produziam e exportavam manufaturados; os periféricos, colônias ou semicolônias, forneciam matérias-primas e alimentos. Trocas desiguais que aprofundaram a dependência e a especialização primária.

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A Divisão Internacional do Trabalho (DIT) clássica não é apenas um retrato econômico do século XIX, mas um arranjo geopolítico-geográfico que organizou o espaço mundial em funções complementares e hierárquicas: de um lado, centros que concentravam capital, tecnologia e indústria; de outro, periferias especializadas em economias primário-exportadoras. Esse desenho resultou da expansão do capitalismo industrial britânico, que, ao buscar mercados consumidores e fontes de matérias-primas, reconfigurou territórios inteiros — como a Índia, transformada de exportadora de manufaturados têxteis em fornecedora de algodão bruto para as fábricas de Manchester, e o Brasil, cuja economia se atrelou ao café para o mercado europeu.

A dependência não era apenas comercial, mas estrutural: os países periféricos tinham suas infraestruturas (portos, ferrovias) voltadas para o escoamento de produtos primários, não para a integração interna, e suas decisões econômicas sofriam ingerência direta das potências centrais, como no caso da Política do Café com Leite e dos empréstimos britânicos que condicionavam a política fiscal brasileira. Autores como Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso (este com a Teoria da Dependência) mostraram que essa especialização não era uma etapa natural, mas imposta, gerando trocas desiguais — os preços dos manufaturados cresciam mais que os dos primários, drenando riqueza da periferia.

Estado, liberalismo, keynesianismo e produção do espaço

No liberalismo clássico, o Estado se abstém e o mercado ordena o território. No keynesianismo, passa a investir em infraestrutura, habitação e políticas regionais, produzindo diretamente o espaço — rodovias, cidades planejadas e o Welfare State reconfiguram o território.

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A chave para entender esse tópico é perceber que o Estado não é um agente externo à economia, mas um produtor ativo do espaço geográfico, e que a forma como ele intervém muda conforme o paradigma econômico dominante. No liberalismo clássico, herdeiro de Adam Smith e consolidado no século XIX, a lógica é a do Estado mínimo: cabe ao mercado alocar capitais e, portanto, definir onde se concentram indústrias, portos e ferrovias, enquanto o Estado apenas garante contratos, propriedade e livre circulação — o território resultante é desigual e espontâneo, marcado por fortes contrastes regionais. Com a crise de 1929 e a Grande Depressão, o keynesianismo rompe essa lógica ao defender que o Estado deve intervir para sustentar a demanda e o emprego, o que se traduz materialmente no espaço: nos EUA, o Tennessee Valley Authority (1933) combinou barragens, usinas, irrigação e industrialização planejada de uma região inteira, sendo talvez o exemplo mais emblemático de Estado que constrói o território deliberadamente.

No pós-guerra, essa lógica se generaliza no Welfare State europeu, com políticas regionais de desconcentração industrial, cidades-dormitório, metrôs e sistemas viários que reorganizam a geografia urbana, mas também aprofundam a metropolização e a periferização. A partir dos anos 1970-80, com a crise fiscal e a ascensão do neoliberalismo, o Estado não desaparece: ele muda de função, passando de produtor direto a regulador e facilitador — privatiza estatais, concede infraestrutura à iniciativa privada e cria parcerias público-privadas, mas segue sendo decisivo na produção do espaço por meio de marcos legais, zoneamentos e incentivos fiscais que direcionam o capital para determinadas áreas em detrimento de outras.

Monopólios, oligopólios, cartéis e trustes

Formas de concentração do capital na Segunda Revolução Industrial. Monopólio: um único vendedor. Oligopólio: poucos. Cartel: acordo entre empresas independentes para fixar preços — como a Opep. Truste: fusão sob comando único. Marcam a passagem ao capitalismo monopolista.

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Essas formas de organização não são apenas classificações de manual: elas expressam a lógica do capitalismo monopolista, em que a livre concorrência do século XIX é substituída pela dominação de poucos agentes sobre setores inteiros da economia. O ponto de partida teórico é a tendência à concentração e centralização do capital: quanto maior a empresa, maior sua capacidade de investir, inovar, pressionar fornecedores, controlar preços e eliminar concorrentes por meio de guerras de preços. Quando essa concentração atinge certo grau, surge o monopólio, que pode ser classificado em natural (quando os custos de infraestrutura inviabilizam a concorrência, como no caso clássico das redes de distribuição de energia elétrica e de água) e institucional (quando o Estado concede patentes ou licenças, como no caso de medicamentos protegidos por patentes farmacêuticas).

Já o oligopólio é a forma mais comum no capitalismo contemporâneo: poucas empresas dominam o mercado e, mesmo competindo, tendem a evitar a guerra de preços, pois isso reduziria o lucro de todas — daí a importância dos cartéis, acordos que podem ser explícitos (como o da Opep, que coordena a produção de petróleo entre países-membros) ou tácitos, quando empresas sinalizam aumentos de preços sem contrato formal, prática chamada de conluio. O truste, por sua vez, vai além do acordo: envolve a fusão ou o controle acionário de várias empresas sob uma única direção, eliminando a concorrência interna. O exemplo histórico mais citado é a Standard Oil, de John D.

Rockefeller, que no final do século XIX controlava cerca de 90% do refino de petróleo nos Estados Unidos e foi desmembrada em 1911 pela lei antitruste Sherman. Esse desmembramento, aliás, mostra que o próprio Estado capitalista cria mecanismos de defesa da concorrência, o que gera a tensão central do tema.

Mundo: neocolonialismo – séculos XIX e XX

A partilha da África e da Ásia pelas potências europeias, formalizada na Conferência de Berlim (1884-1885), garantiu matérias-primas, mercados e áreas de investimento. Deixou fronteiras artificiais, economias monoexportadoras e conflitos étnicos que persistem.

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O neocolonialismo representa uma nova fase da expansão capitalista, distinta do colonialismo mercantilista dos séculos XVI a XVIII: agora, com a Segunda Revolução Industrial, as potências europeias precisavam não apenas de matérias-primas, mas de mercados consumidores para seus produtos manufaturados e de áreas seguras para exportar capital excedente, o que explica a corrida por territórios na África e na Ásia entre 1870 e 1914. O conceito-chave é que a soberania formal dos novos Estados independentes, quando existia, escondia uma dependência estrutural: empréstimos, ferrovias, portos e enclaves controlados por companhias estrangeiras garantiam o fluxo de riquezas sem necessidade de administração colonial direta, como no Egito, onde a construção do Canal de Suez (1869) levou à tutela britânica sobre o país, ou na China, retalhada em esferas de influência após as Guerras do Ópio.

A crise final do liberalismo clássico e a ascensão do keynesianismo

A Crise de 1929 desmentiu a autorregulação do mercado. Keynes defendeu que o Estado deve estimular a demanda com gastos e investimentos, mesmo com déficit. O New Deal e, no pós-guerra, o Estado de bem-estar social aplicaram a receita por cerca de quarenta anos.

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A crise final do liberalismo clássico designa o colapso do conjunto de ideias que, desde Adam Smith e sobretudo com o liberalismo de laissez-faire do século XIX, pregava que o mercado se autorregula, que o Estado deve interferir o mínimo possível na economia e que o desemprego seria sempre voluntário ou temporário. O ponto de ruptura veio com a Grande Depressão iniciada em 1929, quando a queda da Bolsa de Nova York arrastou bancos, indústrias e o comércio mundial, gerando desemprego em massa e deflação prolongada; ficou evidente que o mercado não se recuperaria sozinho, como queriam os liberais ortodoxos que recomendavam apenas cortar gastos e equilibrar orçamentos.

Em 1936, John Maynard Keynes publicou a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, demonstrando que o nível de emprego depende da demanda efetiva e que, em recessões, o Estado deve gastar e investir para reativar a economia, aceitando déficits públicos temporários.