F2 · Aulas 45–46

Rússia e Índia

Rússia

Maior país do mundo em área, com onze fusos horários e imensas reservas de gás natural, petróleo, minérios e madeira. É potência militar e nuclear, mas tem economia pouco diversificada e dependente de commodities, além de população em declínio.

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A Rússia deve ser entendida, antes de tudo, como um país cuja geografia física condiciona radicalmente sua geopolítica: a imensidão territorial, a posição setentrional em altas latitudes e a continentalidade explicam tanto a dificuldade de ocupação humana quanto a lógica de sua projeção externa. Cerca de 77% do território corresponde à Sibéria, imensa faixa a leste dos Urais marcada pelo clima subártico e polar, pelos solos de permafrost e por densidades demográficas baixíssimas, contrastando com a concentração populacional na Rússia Europeia, sobretudo na região do rio Volga, no Cáucaso e no entorno de Moscou. Essa assimetria — população a oeste, recursos a leste — gera o que a geografia chama de descontinuidade espacial, exigindo enormes investimentos em infraestrutura de transporte, como a Ferrovia Transiberiana, para conectar centros produtores e consumidores.

No plano econômico, a herança soviética deixou um parque industrial pesado e um complexo militar-industrial, mas a transição pós-1991 aprofundou a dependência de hidrocarbonetos: petróleo e gás natural respondem por parcela decisiva das exportações e das receitas fiscais, o que torna o país vulnerável às oscilações do mercado internacional, como ficou evidente nas sanções impostas após 2014 e intensificadas em 2022, que atingiram bancos, tecnologia e o setor energético. Exemplo concreto dessa estratégia é o uso do gás como instrumento geopolítico contra a Europa: os gasodutos Nord Stream 1 e Nord Stream 2, que ligavam a Rússia à Alemanha pelo mar Báltico, foram projetados para contornar países de trânsito como a Ucrânia, e o segundo nunca chegou a operar plenamente, sendo alvo de sabotagem em 2022 — episódio que simboliza a energia como arma de pressão.

A isso soma-se a questão demográfica: queda da natalidade, envelhecimento populacional e emigração de jovens qualificados agravam a escassez de mão de obra, problema histórico num país de baixa densidade.

Formação da Rússia moderna

Do Império czarista à URSS (1922-1991) e à Federação Russa. Os anos 1990, sob Iéltsin, trouxeram terapia de choque neoliberal, hiperinflação, colapso do PIB e a formação dos oligarcas. Putin, a partir de 2000, recentralizou o poder e retomou o controle estatal sobre a energia.

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A formação da Rússia moderna começa muito antes de 1991: o Império Czarista, consolidado a partir de Moscou e expandido por Ivan IV e Pedro, o Grande, já carregava dois traços que reaparecem em toda a história russa — centralização autoritária do poder e expansão territorial em busca de saídas marítimas e recursos. Por isso a URSS não foi ruptura total, mas radicalização: manteve o Estado forte, agora sob ideologia comunista e economia planificada, com coletivização forçada, industrialização acelerada e controle político pelo Partido Comunista.

O poder russo e seu exterior próximo

Doutrina de manter zona de influência nas ex-repúblicas soviéticas, resistindo à expansão da OTAN. Instrumentos: energia, presença militar, apoio a regiões separatistas e intervenções — Geórgia (2008), anexação da Crimeia (2014) e a invasão da Ucrânia em 2022.

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O conceito de "exterior próximo" designa o conjunto de países que, após a dissolução da URSS em 1991, permaneceram atrelados a Moscou por laços históricos, econômicos, militares e culturais, funcionando como um cinturão estratégico de segurança. Trata-se de uma releitura contemporânea da antiga política de spheres of influence: em vez de controle territorial formal, a Rússia busca garantir governos alinhados e impedir a aproximação desses vizinhos com potências rivais, sobretudo a OTAN e a União Europeia. Para isso, combina instrumentos econômicos — como preços subsidiados de gás natural e a União Econômica Eurasiática —, militares — bases no exterior, exercícios conjuntos e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) — e políticos — apoio a lideranças pró-Moscou e pressão sobre governos recalcitrantes.

Cáucaso do Norte

Região montanhosa e de grande diversidade étnica e religiosa, dentro do território russo. Palco das guerras da Chechênia (1994-96 e 1999-2009), com destruição de Grózni e forte repressão. Permanece área de tensão, com insurgência islâmica e controle político autoritário.

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O Cáucaso do Norte é, antes de tudo, um conceito geopolítico que revela a fragilidade interna do poder russo: trata-se do flanco montanhoso entre os mares Negro e Cáspio, formado por repúblicas autônomas como Daguestão, Chechênia, Inguchétia, Ossétia do Norte, Kabardino-Balkária e Karachai-Cherkéssia, onde a Rússia exerce soberania formal, mas nunca plena. A importância estratégica da região está em três eixos: o controle dos oleodutos de Baku-Tbilissi-Ceyhan, que contornam o território russo, a rota do corredor Norte-Sul em direção ao Irã e à Índia, e a proximidade com a Geórgia e o Azerbaijão, onde Moscou tenta manter influência após a guerra de 2008.

Historicamente, o poder russo sempre tratou o Cáucaso como zona-tampão entre o cristianismo ortodoxo e o mundo islâmico, e a resistência local remonta ao século XIX, com a Guerra do Cáucaso e o líder imã Shamil. O exemplo concreto mais ilustrativo é a evolução do conflito checheno: após as duas guerras, o Kremlin apoiou a ascensão de Ramzan Kadirov ao poder, transformando a Chechênia em um protetorado pessoal financiado por Moscou, mas que exporta violência para as repúblicas vizinhas. Dessa tensão nasceu o Emirado do Cáucaso, autoproclamado em 2007, que unificou diferentes frentes jihadistas do Daguestão, da Inguchétia e da Kabardino-Balkária. Dois episódios mostram a escala da violência: o ataque à escola de Beslan, em 2004, na Ossétia do Norte, com mais de 330 mortos, e os atentados ao metrô de Moscou em 2010, reivindicados pelo Emirado do Cáucaso e executados por mulheres-bomba, evidenciando que o conflito transborda as fronteiras montanhosas.

Em resposta, o Estado russo aprofundou o autoritarismo: criou o Distrito Federal do Cáucaso do Norte em 2010, ampliou a presença militar permanente, restringiu liberdades civis e cooptou elites locais por meio de subsídios, o que gera dependência econômica e corrupção sistêmica, mas não elimina o fundamentalismo islâmico nem o separatismo latente.

Ucrânia: gasodutos e distribuição étnico-linguística

A Ucrânia era rota central dos gasodutos russos para a Europa — daí o Nord Stream, construído para contorná-la. O leste industrial, o Donbass, e a Crimeia concentram população russófona, enquanto o oeste é mais ucraniano-falante e pró-europeu: clivagem explorada no conflito.

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A Ucrânia herdou da URSS uma rede de gasodutos construída para escoar o gás siberiano rumo aos mercados europeus, o que a transformou em corredor energético estratégico: cerca de 80% do gás russo exportado à Europa passava por seu território até o início dos anos 2010, conferindo a Kiev poder de barganha e trânsito. Como Moscou cobrava preços subsidiados e usava o insumo como alavanca política — cortes de fornecimento em 2006 e 2009 deixaram parte da Europa sem gás em pleno inverno —, a Rússia passou a financiar rotas alternativas, como o Nord Stream (2011-2012), pelo Báltico, e depois o TurkStream, pelo mar Negro.

Ao mesmo tempo, a composição étnico-linguística do país revela fratura histórica: as regiões anexadas ao Império Russo ainda no século XVII e industrializadas no período soviético, como Donetsk e Luhansk, no Donbass, e a Crimeia, têm maioria russófona e forte vínculo com Moscou; já a Galícia e a Volínia, no oeste, incorporadas pela URSS apenas em 1939, são ucranianófonas, católicas de rito oriental e voltadas à Europa. Essa clivagem territorial foi instrumentalizada por Moscou para justificar a anexação da Crimeia, em 2014, após o Euromaidan, e o apoio aos separatistas do Donbass, transformando diferenças culturais em pretexto geopolítico.

Índia

País mais populoso do mundo desde 2023, com população jovem e crescimento econômico acelerado. Independente em 1947, é a maior democracia do planeta, mas extremamente desigual: convivem polos de tecnologia da informação e centenas de milhões em pobreza. O sistema de castas, formalmente abolido, persiste socialmente.

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A Índia combina uma estrutura agrária ainda pesada — cerca de 40% da força de trabalho no campo, com propriedades minifundiárias e forte dependência da monção — com um setor de serviços de alta tecnologia que responde por aproximadamente metade do PIB, fenômeno que os geógrafos chamam de "crescimento sem emprego", pois gera riqueza sem absorver o excedente de mão de obra. O exemplo concreto é Bangalore, no planalto do Decã: conhecida como o "Vale do Silício indiano", concentra multinacionais de software e startups, mas está cercada por periferias com saneamento precário e bairros que surgiram de forma espontânea, evidenciando o dualismo urbano entre a cidade global e a cidade informal.

Some-se a isso a questão hídrica: a disputa por rios como o Ganges e o Kaveri entre estados e com o Paquistão (Tratado de Indus) é fonte de tensão geopolítica, e a dependência das chuvas monçônicas para a agricultura explica crises de abastecimento e inflação de alimentos. Na esfera social, embora a Constituição de 1947 tenha abolido a intocabilidade, os dalits ainda enfrentam segregação em vilarejos, e as cotas reservadas em universidades e empregos públicos — como as implementadas para os Other Backward Classes — são tema de intenso debate político.

Há ainda o contraste regional: estados do sul, como Kerala e Tamil Nadu, apresentam IDH muito superior ao de estados do norte, como Bihar e Uttar Pradesh, o que alimenta reivindicações federalistas e movimentos separatistas em áreas como Caxemira e o Nordeste.

Conflitos na Caxemira e em Punjab

A partilha de 1947 dividiu o subcontinente por critério religioso, criando o Paquistão e provocando migrações e massacres. A Caxemira, de maioria muçulmana e governante hindu, ficou disputada — já provocou três guerras entre dois países hoje nucleares. Em Punjab, o separatismo sikh marcou os anos 1980.

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Esses conflitos são melhor compreendidos como exemplos do descompasso entre a lógica do Estado-nação moderno e a realidade de sociedades multiétnicas e multirreligiosas: tanto a Caxemira quanto o Punjab expõem a tensão entre soberania territorial e identidade cultural, mostrando que fronteiras herdadas do colonialismo raramente coincidem com a distribuição real dos povos. A Caxemira sintetiza essa contradição porque o Reino de Jammu e Caxemira, sob o marajá Hari Singh, tinha maioria muçulmana mas governante hindu; pressionado pela invasão de tribais apoiados pelo Paquistão em 1947, o marajá assinou a adesão à Índia, gerando a primeira das guerras indo-paquistanesas e a divisão de fato entre a Caxemira indiana (Vale do Caxemira, Jammu e Ladakh), a Caxemira paquistanesa (Azad Caxemira e Gilgit-Baltistão) e a faixa sob controle chinês (Aksai Chin), disputa que levou à guerra sino-indiana de 1962.

Como exemplo concreto e atual, vale lembrar a revogação do Artigo 370 pela Índia em agosto de 2019, que retirou o status especial de Jammu e Caxemira, dividiu o estado em dois territórios de união e impôs bloqueio e restrições de comunicação; a medida agravou a tensão com o Paquistão — que a considera ilegal — e é citada em provas como evidência de que a disputa permanece sem solução e de que o risco de escalada entre dois países nucleares segue real.

Já o Punjab ilustra a face interna desse tipo de conflito: após a Partilha, a província foi dividida entre Índia e Paquistão, e a minoria sikh indiana, concentrada no Punjab, passou a reivindicar autonomia e depois um Estado independente, o Khalistão; nos anos 1980, o movimento separatista, liderado por figuras como Jarnail Singh Bhindranwale, desembocou em violência e na Operação Estrela Azul (1984), quando o Exército indiano invadiu o Templo Dourado, em Amritsar, seguida do assassinato da primeira-ministra Indira Gandhi por seus guarda-costas sikhs e de uma onda de pogroms antissikhs — episódios frequentemente associados, nas provas, à tensão entre secularismo estatal e políticas de reconhecimento de minorias.

Na Fuvest e na Unicamp, o tema costuma aparecer ligado à geopolítica das fronteiras coloniais, ao papel da religião na formação dos Estados nacionais e à proliferação nuclear; no ENEM, surge em questões sobre refugiados, direitos humanos e conflitos contemporâneos, pedindo que o aluno relacione causas históricas e consequências atuais.

Caxemira: localização

Região montanhosa no extremo norte, na confluência entre Índia, Paquistão e China, que a controlam em partes separadas pela Linha de Controle. Além do valor simbólico e estratégico, concentra nascentes de rios essenciais aos dois países — o que agrega uma disputa pela água.

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A Caxemira é um dos conflitos territorialistas mais duradouros do planeta, e sua compreensão exige articulação entre geopolítica, história e recursos naturais: trata-se de um território de maioria muçulmana cujo marajá hindu, em 1947, no momento da Partilha que criou Índia e Paquistão, optou tardiamente pela adesão à Índia — decisão nunca aceita por Islamabad, o que deflagrou a Primeira Guerra indo-paquistanesa (1947-1948) e a divisão da região entre uma área sob controle indiano, uma sob controle paquistanês e uma sob controle chinês, separadas por uma Linha de Controle que não é fronteira reconhecida internacionalmente, e sim um cessar-fogo congelado pelas resoluções da ONU, que previam um plebiscito nunca realizado.

O caso concreto mais ilustrativo dessa complexidade é a revogação, em agosto de 2019, do artigo 370 da Constituição indiana pelo governo de Narendra Modi, que retirou a autonomia especial do estado de Jammu e Caxemira, dissolveu-o em dois territórios de união sob controle direto de Nova Délhi e impôs um bloqueio de comunicações que durou meses, gerando protestos, tensões internacionais e a escalada de 2019-2020, com incursões aéreas mútuas e a queda de um caça indiano; desde então, a Índia recusa mediação externa e o Paquistão insiste na internacionalização do litígio, enquanto a China, terceira parte, mantém a região de Aksai Chin e reivindica áreas como o vale de Demchok, elevando o risco de conflitos simultâneos.

É justamente a dimensão hídrica que transforma a Caxemira em peça-chave do xadrez geopolítico, pois nela nascem rios que sustentam a agricultura e o abastecimento de milhões de pessoas nos dois países — o Indo, com seus afluentes Jhelum e Chenab, e o Sutlej, que corre para o lado chinês — e o Tratado de Águas do Indo, mediado pelo Banco Mundial em 1960, dividiu o uso dessas águas entre Índia (rios orientais: Ravi, Beas e Sutlej) e Paquistão (rios ocidentais: Indo, Jhelum e Chenab), mas a Índia tem ameaçado revisar ou suspender o acordo em retaliação a ataques terroristas, e obras como a barragem de Baglihar, no rio Chenab, foram motivo de arbitragem internacional, ilustrando como o controle das nascentes se converte em arma política e em fonte de insegurança hídrica para o Paquistão, que depende desses cursos d'água para sua produção agrícola e alimentação.

A economia indiana

Salto direto da agricultura para os serviços, sem industrialização de massa equivalente à chinesa. Destaques: tecnologia da informação em Bangalore, offshoring, farmacêutica de genéricos e indústria audiovisual. Persistem informalidade elevada, infraestrutura deficiente e forte desigualdade regional.

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A economia indiana costuma ser explicada pelo conceito de terciarização precoce, isto é, a expansão do setor de serviços antes que o país complete sua industrialização de massa — fenômeno ligado à globalização dos anos 1990, quando a liberalização econômica e a mão de obra qualificada e anglófona atraíram multinacionais em busca de custos menores.

Vale lembrar que a Revolução Verde indiana, iniciada nos anos 1960 com sementes de alta produtividade e irrigação, garantiu a autossuficiência alimentar de trigo e arroz, mas concentrou os ganhos nos grandes proprietários e agravou as diferenças no campo, o que reforça a leitura de que o salto indiano para os serviços convive com uma base agrícola moderna e excludente ao mesmo tempo.