F2 · Aulas 43–44

China

O desafio à hegemonia ocidental

A China tornou-se a maior economia em paridade de poder de compra, a maior exportadora e a "fábrica do mundo". Sua ascensão é o principal fator de reorganização da ordem mundial e alimenta a tese da armadilha de Tucídides — o risco de conflito entre potência estabelecida e potência ascendente.

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O desafio à hegemonia ocidental se materializa quando a China converte poder econômico em poder estrutural, isto é, na capacidade de definir as regras do jogo global — algo que o Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, controlava desde 1945 por meio do dólar, do FMI, do Banco Mundial e da OTAN. Pequim atua em três frentes: financeira, com os BRICS e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, que oferecem crédito sem as condicionalidades neoliberais do Consenso de Washington; tecnológica, com a disputa pela liderança em 5G, semiconductores, inteligência artificial e energia renovável, setores em que a Huawei e as metas de neutralidade de carbono chinesas desafiam diretamente a supremacia americana; e geopolítica, com a Iniciativa Cinturão e Rota, que já reúne mais de 140 países e projeta influência sobre Ásia, África, Europa e América Latina.

A potência do Oriente

Modelo próprio: "socialismo de mercado" ou capitalismo de Estado, com partido único, planejamento de longo prazo, grandes estatais e forte investimento em infraestrutura, educação e pesquisa. Combina abertura econômica com controle político rígido e vigilância digital ampla.

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Esse modelo híbrido, que combina mecanismos de mercado com direção estatal e monopólio político do Partido Comunista, deve ser entendido como uma estratégia de modernização acelerada sob comando central, e não como adesão ao liberalismo clássico: o Estado chinês mantém o controle dos chamados "comandos da economia" — terra urbana, crédito bancário, energia e grandes conglomerados — enquanto permite concorrência em setores de bens de consumo e serviços, o que explica por que a China cresceu a taxas de dois dígitos por décadas sem adotar eleições competitivas nem imprensa livre.

O exemplo mais ilustrativo é a criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) a partir de 1980, começando por Shenzhen, então uma vila de pescadores vizinha a Hong Kong que se tornou megalópole industrial e polo tecnológico: ali se testaram incentivos fiscais, capital estrangeiro e mão de obra barata sob rígida supervisão estatal, e o sucesso do experimento foi depois replicado em outras cidades litorâneas, demonstrando como Pequim usa "laboratórios" regionais antes de generalizar políticas.

Vale lembrar que o modelo se apoia em três pilares frequentemente cobrados em prova: a abertura comercial seletiva após 1978, sob Deng Xiaoping; o investimento maciço em infraestrutura, educação e P&D, que fez o país saltar de exportador de têxteis a líder em 5G, painéis solares e veículos elétricos; e o controle social ampliado, com crédito social e vigilância digital, evidenciando que a liberalização foi econômica, nunca política.

Formação da China moderna

Do "século da humilhação" — Guerras do Ópio e tratados desiguais — à revolução de 1949, com Mao. Após o Grande Salto e a Revolução Cultural, Deng Xiaoping abre a economia a partir de 1978, criando as Zonas Econômicas Especiais em Shenzhen e no litoral, com capital estrangeiro e mão de obra barata.

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A formação da China moderna se entende melhor como a transformação de um império milenar em potência industrial sob comando do Partido Comunista, e o ponto de virada é a constatação, após a morte de Mao, de que o isolamento e o planejamento rígido não resolviam a miséria de um país com mais de 80% da população no campo. As comunas agrícolas do Grande Salto causaram fome e a Revolução Cultural paralisou universidades e indústria, o que abriu espaço, já com Deng Xiaoping, para a fórmula das "quatro modernizações" combinada com a ideia de "um país, dois sistemas" — esta última aplicada a Hong Kong, que volta ao controle chinês em 1997 mantendo por cinquenta anos seu sistema capitalista e sua bolsa de valores.

O exemplo concreto mais didático é Shenzhen: uma vila de pescadores vizinha a Hong Kong que em 1979 recebeu o status de Zona Econômica Especial, atraiu capital japonês e da diáspora chinesa, virou polo de eletrônicos e hoje tem PIB superior ao de muitos países, simbolizando como a China usou o mercado sem abrir mão do controle político e da propriedade estatal dos setores estratégicos.

O atual projeto de poder chinês

Sob Xi Jinping, políticas de "prosperidade comum", o plano Made in China 2025 — para dominar setores de alta tecnologia — e a projeção externa pela Nova Rota da Seda. Objetivo declarado: tornar-se potência plenamente desenvolvida até 2049, centenário da República Popular.

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O atual projeto de poder chinês articula três dimensões indissociáveis — interna, tecnológica e externa — sob a doutrina do "sonho chinês" de rejuvenescimento nacional. No plano interno, o conceito de prosperidade comum não é mera retórica distributiva: desde 2021, o governo estrangulou setores como o das big techs (caso da suspensão do IPO da Ant Group) e o educacional privado, sinalizando que o crescimento não pode mais se dar à custa da coesão social e do controle do Partido. Trata-se de reorientar o capital para prioridades estratégicas, evitando o "capitalismo desenfreado". No plano tecnológico, a Made in China 2025 busca reduzir a dependência de semicondutores, IA e veículos elétricos importados — exemplo concreto é o avanço da Huawei em chips 5G e a ascensão da BYD como maior fabricante mundial de elétricos, desafiando a hegemonia ocidental.

Já a projeção externa combina a Nova Rota da Seda (infraestrutura e dívida em países do Sul Global) com a Iniciativa de Segurança Global, buscando reconfigurar a ordem internacional. O objetivo declarado — potência plenamente desenvolvida até 2049 — implica superar a armadilha da renda média e contestar a liderança dos EUA.

Os planos de expansão da Nova Rota da Seda

A Belt and Road Initiative (2013) financia portos, ferrovias, rodovias e redes digitais na Ásia, África, Europa e América Latina, com um cinturão terrestre e uma rota marítima. Amplia mercados e acesso a recursos, mas é criticada pela armadilha da dívida imposta a países pobres.

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A Nova Rota da Seda é a tradução geopolítica de um projeto chinês que combina infraestrutura, comércio e influência estratégica: ao financiar obras em países vizinhos e distantes, Pequim cria corredores logísticos que escoam suas mercadorias e garantem acesso a energia e matérias-primas, ao mesmo tempo que amplia sua presença política e militar em regiões antes dominadas por potências ocidentais. O exemplo mais emblemático é o porto de Gwadar, no Paquistão, no Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC): ligado por estrada e ferrovia até o oeste chinês, ele permite à China alcançar o Oceano Índico sem depender do estreito de Malaca, ponto de estrangulamento controlado por aliados dos EUA.

Outro caso é o porto de Pireu, na Grécia, arrendado pela Cosco e transformado em porta de entrada de produtos chineses na Europa, evidenciando como a BRI avança também sobre o Velho Mundo.

Em resumo, a Nova Rota da Seda não é apenas um conjunto de obras: é um instrumento de projeção de poder que substitui a antiga lógica colonial por uma rede de influência financeira e logística, cobrada em vestibulares como exemplo da globalização assimétrica e do avanço chinês sobre áreas historicamente ocidentais.

O mar do Sul da China

Área disputada por China, Vietnã, Filipinas, Malásia e Brunei, com reservas de petróleo e gás, pesca abundante e uma das rotas comerciais mais movimentadas do mundo. A China reivindica quase todo o mar pela "linha de nove traços", constrói ilhas artificiais e ignorou decisão contrária de tribunal internacional em 2016.

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A "linha de nove traços" é a representação cartográfica da reivindicação chinesa sobre cerca de 90% do mar do Sul da China, mas seu fundamento é frágil: baseia-se em direitos históricos difusos, sem coordenadas precisas nem base no direito do mar. O regime jurídico aplicável é a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM, 1982), que garante a cada Estado uma Zona Econômica Exclusiva (ZEE) de 200 milhas náuticas a partir da costa e uma plataforma continental com direitos sobre os recursos do subsolo; como essas ZEEs se sobrepõem no mar do Sul da China, a saída prevista é a negociação ou a arbitragem, não a imposição unilateral.

Em 2013, as Filipinas acionaram a Corte Permanente de Arbitragem (CPA), sediada em Haia — não um "tribunal de Haia" genérico —, que em 2016 decidiu que a "linha de nove traços" não tem base no direito internacional e que a China não adquire direitos sobre recursos além do que a CNUDM permite; a China, porém, rejeitou o laudo e seguiu com a militarização de ilhas artificiais, como Fiery Cross Reef, onde instalou pistas e radares.

Taiwan, Hong Kong e Xinjiang

Taiwan: refúgio dos nacionalistas em 1949, é reivindicada pela política de "uma só China" e concentra a produção mundial de semicondutores avançados. Hong Kong: devolvida em 1997 sob "um país, dois sistemas", teve a autonomia restringida após 2019. Xinjiang: acusações internacionais de repressão à minoria muçulmana uigur.

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Esses três territórios expõem as tensões entre soberania, autonomia e identidade que atravessam a China contemporânea. Em Taiwan, o ponto de partida é a Guerra Civil Chinesa: derrotado por Mao em 1949, o Kuomintang de Chiang Kai-shek refugiou-se na ilha e manteve o nome oficial de República da China, com a China continental nunca tendo renunciado ao uso da força. Hoje o caso combina peso econômico e risco geopolítico: a TSMC concentra a maior parte da produção mundial dos chips mais avançados, o que transforma Taiwan numa peça insubstituível das cadeias globais de tecnologia, aproxima os EUA do tema e faz das tensões no Estreito de Taiwan um dos principais focos de atrito do século XXI.

Em Hong Kong, a fórmula "um país, dois sistemas", negociada na devolução de 1997, garantia autonomia por 50 anos, mas a Lei de Segurança Nacional de 2020, após os protestos de 2019, alterou esse equilíbrio e aproximou a região do controle direto de Pequim. Já Xinjiang é o retrato de como a questão territorial se cruza com a diversidade étnica: a região abriga a minoria uigur, de religião muçulmana, alvo de denúncias internacionais de campos de internamento, trabalho forçado e esterilização, além de abrigar a produção de algodão e projetos de infraestrutura ligados à Nova Rota da Seda.