F2 · Aulas 41–42

União Europeia

Formação e expansão da União Europeia

Etapas: CECA (1951), unindo carvão e aço de antigos inimigos para tornar a guerra inviável; CEE (Tratado de Roma, 1957); e a União Europeia pelo Tratado de Maastricht (1992). Expandiu-se para o Leste em 2004, chegando a 28 membros antes do Brexit.

Aprofundar

Mais do que uma simples sequência de tratados, a União Europeia é o resultado de um processo permanente de tensão entre duas forças complementares: o alargamento (entrada de novos países) e o aprofundamento (aumento da integração entre os membros). O alargamento é horizontal, geográfico, e amplia o número de sócios — a adesão dos países do Leste em 2004 e 2007, que trouxe doze novos membros de economia pós-socialista, é o exemplo máximo. O aprofundamento é vertical, institucional, e transforma a natureza do bloco: a criação do euro (1999, em circulação a partir de 2002), que unificou a política monetária sob o Banco Central Europeu, é o caso mais emblemático de aprofundamento econômico, pois retirou dos Estados a soberania sobre juros e câmbio.

A desregulamentação da livre circulação de pessoas pelo Acordo de Schengen (1985, incorporado ao direito comunitário em 1997) também representa aprofundamento, mas no plano da integração política e social, não econômica — daí a confusão comum em provas. Essas duas forças nem sempre caminham juntas: a crise grega (2010-2015) escancarou a assimetria entre aprofundar a moeda única sem aprofundar a união fiscal e política, forçando resgates e impondo duras medidas de austeridade que geraram forte rejeição popular e questionamentos sobre a legitimidade democrática das decisões de Bruxelas.

Zona do euro

Reúne os países que adotaram o euro (1999-2002), com política monetária unificada pelo Banco Central Europeu, mas políticas fiscais nacionais. Essa assimetria ficou evidente na crise da dívida dos PIIGS — Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha —, que não puderam desvalorizar a moeda e sofreram austeridade severa.

Aprofundar

A zona do euro representa a etapa mais avançada da integração europeia, pois implica a renúncia voluntária dos Estados-membros à sua soberania monetária em favor de uma autoridade supranacional, o Banco Central Europeu, que define a taxa básica de juros e a emissão da moeda única para todo o bloco, enquanto cada governo mantém autonomia para tributar, gastar e se endividar. Essa combinação gera uma tensão estrutural: em uma recessão assimétrica, um país periférico precisa de juros baixos e câmbio desvalorizado, mas o BCE calibra a política monetária pela média do bloco, beneficiando sobretudo a economia alemã, mais competitiva e exportadora.

Acordo de Schengen

Elimina o controle de fronteiras internas, permitindo a livre circulação de pessoas entre os signatários — que não coincidem exatamente com os membros da UE. Foi tensionado pela crise migratória de 2015 e pela pandemia, com reintrodução temporária de controles.

Aprofundar

O Acordo de Schengen, assinado em 1985 na cidade luxemburguesa que lhe dá nome e efetivado em 1995, constitui um tratado de cooperação policial e judicial que criou um espaço comum sem controles fronteiriços internos, complementado pelo Sistema de Informação Schengen (SIS), banco de dados compartilhado sobre pessoas procuradas, documentos roubados e alertas migratórios, e pela cooperação entre polícias e autoridades judiciárias dos países signatários. É fundamental não confundir Schengen com a União Europeia: há países da UE fora de Schengen (Irlanda mantém opt-out; Romênia e Bulgária só ingressaram no espaço aéreo e marítimo em 2024, com adesão terrestre prevista para 2025), e países fora da UE que aderiram a Schengen (Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein, via Acordo de Associação).

Outro caso é o de Ceuta e Melilla, enclaves espanhóis em território marroquino, que funcionam como fronteiras externas de Schengen e palco de pressão migratória.

Desafios atuais

Envelhecimento populacional e dependência de imigração; crises migratórias no Mediterrâneo; ascensão da extrema direita e do euroceticismo; o precedente do Brexit; dependência energética evidenciada pela guerra na Ucrânia; e a tensão entre aprofundar a integração ou preservar soberanias nacionais.

Aprofundar

Os desafios atuais da União Europeia revelam a crise de um modelo de integração que, ao longo de décadas, avançou sobre economias e políticas públicas sem construir uma identidade política comum capaz de sustentá-lo em momentos de crise. O bloco vive um paradoxo estrutural: quanto mais interdependentes se tornam seus membros — sobretudo na zona do euro, com política monetária centralizada no Banco Central Europeu, mas políticas fiscais ainda nacionais —, mais visíveis ficam as assimetrias entre economias centrais, como a Alemanha, e periféricas, como Grécia, Portugal e Itália.

A crise da dívida grega, entre 2010 e 2015, é o exemplo concreto mais didático desse impasse: os pacotes de ajuste impostos pela troika (Comissão Europeia, BCE e FMI) provocaram recessão profunda, desemprego acima de 25% e uma onda de emigração de jovens qualificados, enquanto a Alemanha insistia na austeridade como condição para socorrer Atenas — decisão que expôs o conflito entre solidariedade comunitária e interesses nacionais, minando a legitimidade popular do projeto europeu. Some-se a isso a crise migratória de 2015, quando mais de um milhão de refugiados, sobretudo sírios, chegaram ao continente e a resposta fragmentada — quotas obrigatórias rejeitadas por Hungria, Polônia e República Tcheca, muros erguidos nos Bálcãs, acordos controversos com a Turquia — evidenciou a incapacidade de uma política comum de asilo e alimentou o discurso xenófobo que fortaleceu partidos como o Reagrupamento Nacional, na França, e o Vox, na Espanha.

A guerra na Ucrânia, por sua vez, escancarou a dependência energética do gás russo, sobretudo na Alemanha e na Itália, forçando uma reorientação dolorosa que incluiu o retorno ao carvão e a busca por GNL americano, enquanto o Brexit, consumado em 2020, segue como precedente alarmante de desintegração.

Europa: movimentos separatistas

Regiões que reivindicam autonomia ou independência, quase sempre as economicamente mais ricas ou culturalmente distintas: Catalunha e País Basco na Espanha, Escócia no Reino Unido, Flandres na Bélgica, Córsega na França e o norte da Itália. Combinam identidade linguística e desequilíbrio fiscal.

Aprofundar

Por trás dessas reivindicações está o conceito de nacionalismo subestatal: nações sem Estado que, embora integradas a Estados consolidados, não se reconhecem plenamente neles, por terem língua, história ou instituições próprias. Esse sentimento se fortalece quando se soma ao desequilíbrio fiscal — a percepção de que a região contribui mais do que recebe, ou é ignorada pelas decisões centralizadas. Some-se a isso a erosão do Estado-nação diante da globalização e da própria integração europeia: ao transferir soberania a Bruxelas, os Estados nacionais enfraquecem o argumento de que só eles representam suas populações, e regiões ricas passam a enxergar na independência uma via viável de permanência na União Europeia.

Um caso concreto é a Escócia: após o referendo de independência de 2014, em que o "não" venceu por 55% a 45%, o Brexit reacendeu a questão, pois os escoceses votaram majoritariamente pela permanência na UE e viram-se arrastados à saída contra a própria vontade, o que levou o governo escocês a defender novo plebiscito. Note-se que nem todo movimento é violento: a Córsega, por exemplo, teve sua principal frente armada, a FLNC, dissolvida em 2014, com a causa deslocada para o campo político e institucional.