F2 · Aulas 59–60

Potencialidades e desafios para o desenvolvimento da América Latina na atualidade

Onda rosa e o "boom" das commodities

Nos anos 2000, governos de esquerda foram eleitos em série — Lula, Chávez, Kirchner, Morales, Correa, Mujica —, favorecidos pela alta dos preços das commodities, puxada pela demanda chinesa. Isso financiou programas sociais e reduziu a pobreza, mas aprofundou a reprimarização das economias.

Aprofundar

A Onda Rosa designa a sequência de governos de esquerda e centro-esquerda eleitos na América Latina entre o fim dos anos 1990 e meados dos 2000, fenômeno que se sustentou sobre o boom das commodities, isto é, a elevação histórica dos preços internacionais de matérias-primas como minério de ferro, petróleo, soja e cobre, impulsionada sobretudo pela industrialização chinesa e pela demanda asiática por insumos. O conceito de reprimarização descreve o efeito estrutural dessa bonança: em vez de diversificar a matriz produtiva, os países latino-americanos ampliaram a participação de produtos primários na pauta de exportações, reforçando a especialização herdada da divisão internacional do trabalho e tornando suas economias reféns da volatilidade dos preços externos.

O caso brasileiro é exemplar: a expansão da fronteira agrícola no Cerrado e a valorização do minério de ferro sustentaram superávits comerciais recordes e financiaram o Bolsa Família e o aumento real do salário mínimo, mas a indústria de transformação perdeu participação no PIB, configurando o que economistas chamam de doença holandesa — a apreciação cambial provocada pela entrada de dólares encarece os produtos manufaturados e desestimula a produção local.

A polarização política

Com o fim do ciclo das commodities e escândalos de corrupção, veio a guinada conservadora dos anos 2010, seguida de nova alternância nos anos 2020. O quadro atual combina instabilidade, alta rotatividade eleitoral, crise de representação, ascensão da extrema direita e desconfiança nas instituições.

Aprofundar

A polarização política na América Latina designa o acirramento da disputa entre dois campos ideológicos antagônicos, com enfraquecimento do centro e migração do eixo do debate para os extremos, o que transforma eleições em plebiscitos sobre projetos de sociedade e dificulta a formação de maiorias estáveis e consensos mínimos. Ela é alimentada pela fragmentação partidária, pelo uso das redes sociais como arena de confronto e pela crise de representação, na qual partidos tradicionais perdem capacidade de canalizar demandas sociais, abrindo espaço para outsiders e lideranças antissistêmicas.

Desigualdade, criminalidade e violência na América Latina

A região concentra cerca de 8% da população mundial e um terço dos homicídios. Fatores combinados: desigualdade extrema, juventude sem oportunidades, Estado ausente em territórios periféricos, narcotráfico e o encarceramento em massa, que fortalece facções.

Aprofundar

A violência na América Latina não é um fenômeno isolado de policiamento ou de guerras civis, mas sim um sintoma estrutural de sociedades que combinaram modernização excludente, urbanização acelerada e histórica concentração de terra e renda. O conceito central aqui é o de violência estrutural — aquela que não aparece nas estatísticas de homicídio, mas que se manifesta na negação de direitos básicos, na segregação territorial e na ausência do Estado em periferias e áreas rurais, criando o ambiente em que a violência letal se naturaliza.

Ranking de homicídios no mundo e narcotráfico

As maiores taxas do mundo estão em países latino-americanos e caribenhos. A geografia da violência acompanha as rotas do tráfico: da produção andina de cocaína — Colômbia, Peru, Bolívia — pelos corredores do Caribe, da América Central e do Brasil rumo aos EUA e à Europa.

Aprofundar

A América Latina concentra as maiores taxas de homicídio do planeta, fenômeno que não se explica apenas pela pobreza, mas pela combinação entre desigualdade social extrema, urbanização acelerada e desordenada, presença limitada do Estado em periferias e favelas e a consolidação de economias criminais transnacionais, com destaque para o narcotráfico. Esse quadro se traduz em números como os de Honduras e El Salvador, que já lideraram o ranking mundial de homicídios por 100 mil habitantes, e da Venezuela, hoje entre os mais violentos, além do Brasil, que apesar de taxa nacional média superior a 20 homicídios por 100 mil, apresenta realidades regionais ainda mais graves.

Equador e Costa Rica

Contraste revelador. O Equador, antes pacífico, tornou-se rota central da cocaína e viu os homicídios explodirem, com facções disputando os portos. A Costa Rica, que aboliu as forças armadas em 1948 e investiu em educação e saúde, mantém IDH alto — embora também sofra pressão crescente do tráfico.

Aprofundar

Por trás desse contraste, o que está em jogo é o conceito de segurança humana, que desloca o foco da segurança nacional (fronteiras, exércitos) para a proteção cotidiana do indivíduo contra violência, pobreza e crime organizado — e é justamente esse o eixo que explica por que países vizinhos, com histórias parecidas, seguem trajetórias opostas. O caso equatoriano ilustra como a geografia condena: cortado pela rota do Pacífico, o país virou área de escoamento da cocaína peruana e colombiana, e a partir de 2021 a disputa entre facções como Los Choneros e Los Lobos pelos portos de Guayaquil e Esmeraldas fez a taxa de homicídios saltar de cerca de 14 para mais de 40 por 100 mil habitantes, transformando o país num dos mais violentos da região e levando o governo a decretar "conflito armado interno" em 2024.

Já a Costa Rica apostou na institucionalidade: sem exército desde 1948, redirecionou esses recursos para educação e saúde, sustenta um dos maiores IDHs da América Latina e uma democracia estável há décadas, servindo de modelo para a chamada "exceção costarriquenha" — ainda que, como o próprio resumo aponta, enfrente hoje o avanço do narcotráfico em seus portos e um aumento sensível dos homicídios, o que relativiza a tese de que desenvolvimento social sozinho resolve o problema.

Triângulo Norte Centro-Americano (TNAC)

Guatemala, Honduras e El Salvador: pobreza, herança de guerras civis, gangues (as maras) e altíssima violência. É a principal origem das caravanas de migrantes rumo aos EUA. Em El Salvador, a política de encarceramento em massa de Bukele reduziu homicídios sob críticas de violação de direitos.

Aprofundar

O Triângulo Norte Centro-Americano — Guatemala, Honduras e El Salvador — forma o núcleo mais crítico da questão da violência latino-americana, pois nele se cruzam vulnerabilidade econômica, fragilidade institucional e criminalidade transnacional. A base do problema está na herança de conflitos civis dos anos 1980 (guerras que deslocaram populações, destruíram economias locais e deixaram um vazio de Estado), agravada pela migração forçada, pela dependência de remessas e por economias informais. Nesse cenário, as maras (como a MS-13 e o Barrio 18, nascidas em Los Angeles e deportadas nos anos 1990) passaram a controlar bairros inteiros, extorquir comerciantes e disputar territórios, transformando cidades como San Salvador e Tegucigalpa em áreas de “fronteira urbana”.

O exemplo mais concreto é a política de Estado de Exceção em El Salvador, iniciada em 2022 por Nayib Bukele: com o regime de emergência, o país prendeu mais de 75 mil pessoas, reduziu drasticamente os homicídios e reconfigurou a segurança pública, mas o custo foi o encarceramento massivo sem devido processo, denúncias de tortura e mortes sob custódia, além do risco de o crime se reorganizar de forma menos visível.