Concentrada nos anos 1960, "o ano da África". Ocorreu de forma pacífica em colônias britânicas e francesas e de forma violenta na Argélia, em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Manteve as fronteiras coloniais e deixou economias monoexportadoras, sem quadros técnicos formados.
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A descolonização da África se insere no contexto da Guerra Fria, quando as duas superpotências pressionavam pela abertura dos mercados coloniais e a ONU, criada em 1945, reforçava o princípio da autodeterminação dos povos, enquanto a Conferência de Bandung (1955) e a Conferência de Acra (1958) articulavam o Terceiro Mundo e o pan-africanismo, abrindo caminho para a independência política das metrópoles europeias fragilizadas economicamente após a Segunda Guerra. Convém distinguir três vias: as negociadas, típicas das colônias britânicas e francesas, com transferência de poder a elites locais; as violentas, em colônias de povoamento ou de exploração intensa, como Argélia, Angola, Moçambique e Guiné-Bissau; e as tardias, em territórios sob domínio branco-minoritário, como Rodésia do Sul e África do Sul.
Conflitos na região do Sahel
Faixa de transição entre o Saara e a savana, marcada por desertificação, insegurança alimentar, Estados frágeis e grupos jihadistas. Somam-se disputas entre pastores e agricultores por terra e água e uma sucessão recente de golpes de Estado em Mali, Burkina Faso e Níger.
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Para entender o Sahel além da definição, pense nele como um sistema de pressões que se reforçam mutuamente: a desertificação avança porque o aquecimento global aquece a faixa mais rápido que a média planetária e porque o pastoreio excessivo e o desmatamento para lenha destroem a cobertura vegetal que fixa o solo; com menos terra produtiva, agricultores sedentários e pastores nômades — muitos de etnias distintas, como os fulani, tuaregues e songhai — passam a competir pelo mesmo poço e pela mesma faixa de pastagem, e essa disputa por recursos vira conflito étnico quando o Estado não consegue arbitrar nem garantir justiça. É aí que entra o jihadismo: grupos como o JNIM (ligado à Al-Qaeda) e o EIGS (ligado ao Estado Islâmico) se infiltram nesse vazio de autoridade, oferecendo proteção e impostos "revolucionários" a comunidades que o governo abandonou, e financiam-se com sequestro, tráfico e mineração ilegal de ouro.
O exemplo mais emblemático é o Mali: em 2012, rebeldes tuaregues e jihadistas tomaram o norte do país, provocando intervenção francesa no ano seguinte; a instabilidade nunca foi resolvida e desaguou em golpes militares em 2020 e 2021, com a junta expulsando tropas francesas e aproximando-se da Rússia via Grupo Wagner, num movimento que se repetiu em Burkina Faso (2022) e no Níger (2023), este último detonando a crise com a CEDEAO e redefinindo alianças regionais.
Nigéria
País mais populoso da África e grande produtor de petróleo no delta do Níger, onde a extração provoca degradação e conflitos. Enfrenta o grupo jihadista Boko Haram no nordeste, com sequestros em massa e deslocamentos, e a clivagem entre o norte muçulmano e o sul cristão.
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A Nigéria ilustra como o Sahel não é só uma faixa climática de transição entre o deserto do Saara e as savanas, mas um espaço onde secas prolongadas, pressão demográfica e fragilidade estatal transformam disputas por terra e água em violência aberta: no norte, o avanço do deserto e a redução do lago Chade agravaram a competição entre criadores fulani, em sua maioria muçulmanos, e agricultores cristãos, choque que ganhou dimensão religiosa e étnica e alimentou o surgimento do Boko Haram em Maiduguri, em 2002, grupo que inicialmente denunciava a corrupção e a desigualdade do Estado nigeriano, mas que a partir de 2009 passou a promover uma insurreição armada, chegando a controlar territórios em 2014 e a sequestrar mais de 270 meninas em Chibok, episódio que ganhou repercussão mundial com a campanha #BringBackOurGirls; a resposta militar criou forças regionais como a Multinational Joint Task Force, com apoio de Chade, Níger e Camarões, mas a violência deslocou milhões de pessoas e se fragmentou em facções como o ISWAP, ligado ao Estado Islâmico; no sul, o delta do Níger acrescenta outra camada, pois a extração petrolífera contamina rios e manguezais e alimenta grupos como o MEND, que cobram redistribuição da renda e reparação ambiental, enquanto a clivagem entre um norte muçulmano, mais pobre, e um sul cristão, mais rico e petrolífero, estrutura a política do país desde a independência, em 1960, e explica por que o poder federal alterna entre elites dessas duas regiões; nas provas, o tema costuma ser cobrado por meio de interpretação de mapas do Sahel e de gráficos sobre deslocados internos, questões que relacionam mudanças climáticas, religião e recursos naturais, pedidos de comparação com outros focos de tensão africanos, como Mali e Sudão, e redações do ENEM sobre refugiados e direitos humanos, exigindo que o candidato articule causas ambientais, históricas e econômicas em vez de reduzir o conflito a um único fator, como o fanatismo religioso.
República Democrática do Congo: conflito mais atual
Rico em coltan, cobalto, cobre e ouro — minerais essenciais à eletrônica e às baterias —, o leste do país vive violência crônica desde os anos 1990, com dezenas de milícias, envolvimento de países vizinhos e financiamento pelos chamados minerais de conflito.
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O conflito na República Democrática do Congo é frequentemente apresentado como uma guerra étnica, mas sua raiz é a disputa pelo controle das reservas minerais e do território, num Estado de instituições frágeis desde a independência de 1960 e a ditadura de Mobutu Sese Seko, derrubado em 1997 por Laurent-Désiré Kabila com apoio de Ruanda e Uganda; a ruptura entre aliados levou à Segunda Guerra do Congo (1998-2003), que envolveu nove países africanos e é considerada a mais letal desde 1945, com milhões de mortes por combate, fome e doenças. Após o acordo de paz de 2003, o leste do país permaneceu instável: o Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP), de Laurent Nkunda, e depois o M23, formado em 2012 e reativado em 2021 com apoio ruandês segundo a ONU, ocuparam áreas de Kivu do Norte e provocaram deslocamentos massivos.
O exemplo concreto mais citado é o do coltan — columbita-tantalita, usado em capacitores de celulares —, extraído em minas artesanais controladas por grupos armados que taxam a produção e a exportam via Ruanda e Uganda, financiando a violência. A ele somam-se cobalto e lítio, essenciais para baterias e para a transição energética, o que conecta o conflito ao mercado global de tecnologia e torna o país peça-chave na geopolítica dos minerais críticos.
O conflito no Sudão
Longa guerra civil entre o norte árabe-muçulmano, no poder, e o sul negro-cristão e animista, agravada pela disputa pelo petróleo. Desde 2023, novo conflito opõe o exército às milícias RSF, provocando uma das maiores crises humanitárias do mundo.
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Para além do resumo, é essencial compreender que o Sudão é um país-costura: resultado da expansão colonial britânica que uniu, à força, um norte majoritariamente árabe e muçulmano, ligado ao Egito e ao Oriente Médio, e um sul de matrizes africanas, cristãs e animistas, além de regiões periféricas como Darfur, a oeste, e o leste próximo ao Mar Vermelho. Essa heterogeneidade explica por que os conflitos sudaneses raramente se resumem a uma única causa; eles combinam disputas por recursos — petróleo no sul, água do Nilo, terras férteis e rotas de pastoreio — com fraturas identitárias historicamente exploradas pelo poder central de Cartum, que, desde a independência em 1956, alternou golpes, ditaduras e tentativas de impor a sharia e a arabização ao conjunto do território.
O caso concreto mais emblemático dessa mistura é Darfur: a partir de 2003, grupos rebeldes não árabes se insurgiram contra o governo de Omar al-Bashir, que respondeu armando milícias árabes conhecidas como Janjaweed, responsáveis por massacres e deslocamentos em massa que levaram o Tribunal Penal Internacional a acusar o próprio presidente por genocídio — mas o pano de fundo também era a disputa por terras e pastagens num contexto de desertificação. Já o conflito iniciado em 2023, entre o Exército Sudão e as Forças de Apoio Rápido (RSF), herdeiro direto das Janjaweed, expõe outra dimensão: a disputa pelo controle do Estado e de suas rendas após a queda de Bashir, com combates urbanos em Cartum, cerco a El Fasher, em Darfur, e limpeza étnica documentada contra populações não árabes.
Sudão do Sul
Tornou-se independente em 2011, após referendo, sendo o país mais novo do mundo. Ficou com a maior parte das reservas de petróleo, mas depende dos oleodutos do Sudão para exportá-lo. Mergulhou em guerra civil étnica em 2013, com fome e deslocamentos em massa.
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A raiz desse conflito remonta à própria formação histórica do Sudão: a colonização anglo-egípcia unificou, sob um mesmo território, um norte majoritariamente árabe-muçulmano e um sul de maioria negra, cristã e animista, regiões que nunca foram integradas de fato, o que gerou décadas de guerras civis após a independência do Sudão em 1956. O Sul resistiu à islamização e à arabização impostas por Cartum, e a descoberta de petróleo na região fronteiriça, nos anos 1970, acirrou a disputa, pois o governo central passou a controlar a riqueza em detrimento da população local. O conflito entre o Exército de Libertação do Povo Sudanês (SPLA) e o governo de Omar al-Bashir culminou no Acordo de Naivasha (2005), que garantiu autonomia ao Sul e o direito ao referendo de autodeterminação — concretizado em 2011.
O conflito em Darfur (Sudão)
Região oeste do Sudão onde, a partir de 2003, milícias árabes janjaweed, apoiadas pelo governo, atacaram populações negras não árabes. Estima-se centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados; foi classificado como genocídio, e o presidente al-Bashir foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional.
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Para entender Darfur além do resumo, é preciso situá-lo numa crise de escassez ambiental e marginalização histórica: a região é semiárida, e a expansão do deserto somada ao crescimento populacional acirrou a disputa por terra e água entre criadores árabes nômades e agricultores negros sedentários (fur, massalit, zaghawa). A partir dos anos 1980, a seca e a fome agravaram esse choque, e o governo de Cartum, dominado pela elite árabe do norte, passou a armar milícias como os janjaweed para conter movimentos rebeldes, transformando tensão econômica em limpeza étnica. O exemplo concreto está no ataque a El-Geneina (capital de Darfur Ocidental), em 2023, quando a milícia Forças de Apoio Rápido (RSF) — herdeira direta dos janjaweed — e aliados árabes mataram milhares de massalit e provocaram novo êxodo em massa, reacendendo o conflito em escala nacional após a queda de al-Bashir.
O conflito no Mali
Combina a rebelião tuaregue pela autonomia do norte com a atuação de grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico. Houve intervenção francesa e, posteriormente, aproximação da junta militar com a Rússia, com a saída das tropas francesas.
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O conflito no Mali é um caso emblemático de como o colapso estatal, as clivagens étnicas e o extremismo religioso se entrelaçam no Sahel, faixa semiárida que se tornou epicentro da instabilidade africana. A origem remonta a 2012, quando a rebelião separatista tuaregue no norte, liderada pelo Movimento Nacional de Libertação do Azawad, aproveitou o vácuo deixado pela queda de Muammar Gaddafi na Líbia — de onde retornaram combatentes tuaregues fortemente armados — e proclamou a independência do Azawad. O movimento foi rapidamente engolido por grupos jihadistas como AQMI, Ansar Dine e MUJAO, que impuseram a sharia em cidades como Timbuktu e Gao, destruindo mausoléus históricos.
A intervenção francesa na Operação Serval, em 2013, expulsou os extremistas das áreas urbanas, mas não resolveu as causas profundas: pobreza, marginalização do norte e fragilidade das instituições. Nos anos seguintes, a violência se descentralizou para o centro do país, com massacres étnicos entre fulanis e dogons na região de Mopti, evidenciando que o conflito deixou de ser apenas separatista para se tornar uma guerra de múltiplas facetas. O golpe militar de 2020 e a aproximação com o grupo Wagner, após a expulsão das forças francesas em 2022, agravaram a crise humanitária e isolaram o país diplomaticamente. Esse tema costuma ser cobrado em provas de Geografia e Atualidades por meio de questões que exigem a identificação das causas do conflito, a associação entre terrorismo e fragilidade estatal e a análise crítica da atuação de potências externas — como França e Rússia — na geopolítica africana, sendo frequente o uso de mapas do Sahel e de gráficos sobre deslocamento forçado para contextualizar o problema.
Conflitos na região do Chifre da África
Península oriental que abrange Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti. Área de secas recorrentes, disputas de fronteira, separatismo — como a guerra do Tigré na Etiópia — e enorme importância estratégica, por controlar o acesso ao mar Vermelho e ao canal de Suez, com bases militares estrangeiras em Djibuti.
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O Chifre da África é um dos epicentros geopolíticos mais explosivos do planeta porque combina Estados frágeis, identidades clânicas e religiosas sobrepostas e uma posição que transforma qualquer conflito local em crise internacional. A região carrega o peso de fronteiras coloniais artificiais — a divisão somali entre Somália, Etiópia, Quênia e Djibuti é o caso clássico —, e isso alimenta o pan-somalismo e grupos como a Al-Shabaab, que desde 2006 controla territórios e ataca capitais, inclusive em Quênia e Uganda. Para entender a gravidade, basta ver a crise do Tigré (2020–2022): o massacre de civis, o uso de fome como arma e o envolvimento da Eritreia ilustram como disputas por poder entre elites regionais (Tigré x Amhara x Oromo) se fundem a rivalidades históricas entre Adis Abeba e Asmara.
Some-se a isso a seca estrutural, que joga pastores contra agricultores e amplifica o deslocamento forçado — hoje há mais de 20 milhões de pessoas necessitadas de ajuda humanitária na área. O interesse estratégico é o combustível externo: o Djibuti abriga bases dos EUA, China, França e Japão, e o controle do Bab-el-Mandeb (porta do mar Vermelho rumo a Suez) torna qualquer instabilidade um risco ao comércio global.
O conflito na Somália
Considerado um Estado falido desde 1991, sem governo central efetivo, dividido entre clãs, com regiões autoproclamadas como a Somalilândia. Enfrenta o grupo jihadista Al-Shabaab, secas e fome recorrentes, e a pirataria no golfo de Áden, que ameaça a rota comercial.
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A origem profunda do colapso somali remonta à ditadura de Siad Barre (1969–1991), que concentrou o poder em torno de sua própria facção e, ao ser deposto, deixou um vazio institucional que nenhum dos senhores da guerra conseguiu preencher, transformando a disputa por território e recursos numa guerra de todos contra todos. Sobre esse caos, emergiu em 2006 o Al-Shabaab, milícia ligada à Al-Qaeda, que chegou a controlar Mogadíscio e boa parte do sul do país, impondo uma leitura radical da sharia, incluindo amputações e apedrejamentos públicos, além de proibir a música e cercear o acesso humanitário — o que agravou a fome de 2011, quando a seca matou cerca de 260 mil pessoas.
O conflito em Moçambique
Após a independência de Portugal (1975), o país viveu longa guerra civil entre a Frelimo, no poder, e a Renamo, apoiada pelo regime do apartheid, até 1992. Recentemente, enfrenta uma insurgência jihadista no norte, na província de Cabo Delgado.
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A insurgência em Cabo Delgado começou em 2017, quando um grupo autodenominado Al-Shabaab — sem relação direta com a milícia somali homônima — passou a atacar vilarejos e postos do governo na província mais ao norte de Moçambique, região de maioria muçulmana e historicamente marginalizada. O movimento, depois vinculado ao Estado Islâmico (EI), explora uma combinação de fatores: pobreza extrema, desemprego juvenil, exclusão política e a presença de gás natural na bacia do Rovuma, uma das maiores reservas da África, cuja exploração prometida não se converteu em melhoria de vida local. Em 2021, os insurgentes ocuparam a cidade de Palma, forçando a paralisação de um megaprojeto de GNL da TotalEnergies e provocando o deslocamento de centenas de milhares de pessoas.
A resposta veio com tropas de Ruanda e do Conselho de Defesa da África Austral (SADC), que desde então ajudaram a retomar parte do território, sem eliminar a ameaça. O caso ilustra como conflitos africanos contemporâneos raramente têm causa única: combinam herança colonial, disputas por recursos naturais, disputas étnico-religiosas e fragilidade estatal.
A violência em Cabo Delgado
Província do extremo norte onde foram descobertas enormes reservas de gás natural offshore, com megaprojetos internacionais. Desde 2017, uma insurgência islamista provoca massacres e deslocou centenas de milhares — conflito que combina pobreza local, exclusão e disputa pelos recursos.
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Cabo Delgado costuma ser explicado nas provas como um caso-síntese de como recursos naturais estratégicos, em vez de gerar desenvolvimento automático, podem aprofundar conflitos quando o Estado é frágil. O gás da bacia do Rovuma — com reservas estimadas em cerca de 180 trilhões de pés cúbicos, entre as maiores descobertas do mundo nas últimas décadas — atraiu consórcios como TotalEnergies (Área 1) e ExxonMobil/Eni (Área 4), além de projetos de GNL avaliados em dezenas de bilhões de dólares. Em 2021, no entanto, o grupo insurgente conhecido como al-Shabab (sem vínculo direto com o somali) ou ISIS-Moçambique tomou Palma, matando dezenas de civis e forçando a TotalEnergies a suspender a planta de Afungi — episódio frequentemente citado como exemplo de como a violência pode paralisar investimentos bilionários.
O que se cobra não é a memorização das datas, mas a articulação causal: de um lado, a marginalização histórica da população macuana e mwani, excluída dos empregos qualificados e dos royalties; de outro, a presença de forças de segurança ruandesas e sul-africanas (missão da SADC), que internacionalizam o conflito.
A especificidade da África do Sul
Economia mais industrializada do continente, com mineração e serviços desenvolvidos. Superou o apartheid em 1994 sem guerra civil, com a Comissão da Verdade. Persistem, porém, desigualdade extrema — o maior Gini do mundo —, desemprego elevado, criminalidade e crise energética.
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A singularidade sul-africana está em combinar uma economia de padrão intermediário global com uma sociedade profundamente fraturada por séculos de dominação racial institucionalizada, o que faz do país um caso à parte no continente. O apartheid, vigente de 1948 a 1994, não foi apenas segregação social, mas um projeto econômico que reservou terras, empregos e educação de qualidade à minoria branca, concentrando riqueza e relegando a maioria negra à periferia dos centros urbanos e às homelands — territórios nominalmente autônomos criados para excluir negros da cidadania plena. A transição negociada, liderada por Nelson Mandela e pelo CNA, evitou a guerra civil e instituiu a Comissão da Verdade e Reconciliação, que priorizou a anistia em troca de confissão em vez de punição, poupando o país do colapso, mas sem promover redistribuição efetiva de terras, riqueza ou poder econômico.
O exemplo concreto mais ilustrativo é Marikana, em 2012, quando a polícia matou 34 mineiros em greve por melhores salários — episódio que expôs a permanência de desigualdades raciais e trabalhistas mesmo dezoito anos após o fim do regime segregacionista, mostrando como o capital minerador continua concentrado nas mãos de poucos enquanto a base da pirâmide segue precarizada.