F2 · Aulas 51–52

Conflitos no Oriente Médio

Os curdos

Maior povo sem Estado do mundo: cerca de 30 a 40 milhões de pessoas, de língua e cultura próprias e maioria sunita. A promessa de um Curdistão no Tratado de Sèvres (1920) foi anulada por Lausanne (1923), e o território ficou repartido entre quatro países.

Aprofundar

A questão curda é o exemplo mais emblemático de nação sem Estado no mundo contemporâneo, e entender por que isso ocorre exige olhar para a geopolítica das potências que redesenharam a região após a Primeira Guerra Mundial. Os curdos ocupam uma área contínua e montanhosa — o chamado Curdistão histórico — que abrange o sudeste da Turquia, o norte do Iraque e da Síria e o noroeste do Irã, região rica em petróleo (Kirkuk, no Iraque, é o caso mais notório) e estrategicamente situada entre rotas de gasodutos e oleodutos. Essa riqueza energética e a fragmentação entre quatro Estados explicam por que nenhuma potência regional tem interesse em viabilizar um Estado curdo: uma nação curda independente desestabilizaria fronteiras e alteraria o equilíbrio de poder do Oriente Médio.

Como esse tema costuma aparecer nas provas: questões que cobram a localização dos curdos nos quatro países, a diferença entre os tratados de Sèvres e Lausanne, o papel do petróleo de Kirkuk, a atuação do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) na Turquia e das milícias curdas sírias (YPG) na guerra civil síria, além da contradição entre o discurso de autodeterminação e os interesses das potências; em redações do Enem, o tema costuma surgir ligado a refugiados, minorias e conflitos étnicos, exigindo do candidato a compreensão de que o problema curdo não é apenas territorial, mas envolve soberania, recursos naturais e geopolítica das grandes potências.

Curdos no Iraque, na Turquia e na Síria

No Iraque, conquistaram autonomia regional após 1991, com governo e petróleo próprios. Na Turquia, o PKK trava conflito armado desde 1984 e é tratado como organização terrorista. Na Síria, as milícias curdas foram aliadas do Ocidente contra o Estado Islâmico, mas são combatidas por Ancara.

Aprofundar

Os curdos formam a maior nação sem Estado do mundo: cerca de 30 a 40 milhões de pessoas espalhadas por Turquia, Irã, Iraque e Síria, unidas por língua indo-europeia própria, maioria muçulmana sunita e memória histórica comum, mas divididas por fronteiras traçadas no papel pelos acordos de Sykes-Picot (1916) e pelo Tratado de Lausanne (1923), que sepultaram a promessa de um Curdistão independente. Essa dispersão gera a tensão central do tema: o direito à autodeterminação de um povo contrasta com a soberania e a integridade territorial dos Estados que o abrigam, e é justamente esse choque que os vestibulares cobram.

O exemplo mais emblemático é o referendo de independência do Curdistão iraquiano, realizado em setembro de 2017 por iniciativa do governo regional de Erbil: cerca de 93% dos votantes aprovaram a separação, mas Bagdá não reconheceu o resultado, retomou militarmente a região de Kirkuk — rica em petróleo — e impôs duros reveses ao governo curdo, enquanto Turquia, Irã e Síria, temendo efeito dominó entre suas próprias populações curdas, fecharam fronteiras e isolaram Erbil.

Guerra Civil na Síria

Começou em 2011 com protestos da Primavera Árabe contra Bashar al-Assad, brutalmente reprimidos. Fragmentou-se em múltiplas frentes, com intervenção de Rússia e Irã (pró-Assad), Turquia, EUA e Golfo, além do Estado Islâmico. Saldo: centenas de milhares de mortos e mais de metade da população deslocada.

Aprofundar

A Guerra Civil Síria é melhor compreendida não como um conflito único, mas como um nó geopolítico onde se sobrepõem uma guerra civil, uma disputa regional de poder e uma competição entre potências globais, o que explica sua duração e complexidade. Após a repressão aos protestos de 2011, a oposição se fragmentou: de um lado, grupos nacionalistas e islâmicos moderados; de outro, jihadistas como a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico (EI), que em 2014 proclamou um califado em Mossul e Raqqa, atraindo milhares de combatentes estrangeiros. O exemplo concreto mais ilustrativo é a batalha de Alepo (2012–2016): cercada pelo regime com apoio da Força Aérea Russa (intervindo desde 2015) e de milícias iranianas e do Hezbollah, a cidade foi dividida entre áreas governamentais e rebeldes, com corredores humanitários bombardeados e deslocamento em massa — um microcosmo das dinâmicas do conflito.

A dimensão regional é decisiva: a Turquia combateu curdos da YPG (aliados dos EUA contra o EI), os EUA apoiaram as Forças Democráticas Sírias (FDS), e Arábia Saudita e Catar financiaram grupos rebeldes, enquanto a Rússia buscava manter sua base naval de Tartus e o Irã garantia o corredor terrestre até o Hezbollah no Líbano. O saldo humanitário é catastrófico: mais de 500 mil mortos, 6,8 milhões de refugiados (maior crise de deslocamento desde a Segunda Guerra) e cidades arrasadas como Homs e Raqqa.

Destinos dos refugiados sírios

A maioria permaneceu em países vizinhos: Turquia — que abriga o maior número do mundo —, Líbano, onde chegaram a representar cerca de um quarto da população, e Jordânia. Uma parcela menor chegou à Europa na crise de 2015, pela rota do Mediterrâneo e dos Bálcãs.

Aprofundar

A Guerra Civil Síria, iniciada em 2011 após a repressão do regime de Bashar al-Assad a protestos da Primavera Árabe, desencadeou a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial: mais da metade da população síria foi forçada a deixar suas casas, e a esmagadora maioria desses deslocamentos se deu dentro do próprio território nacional, gerando milhões de deslocados internos que, ao contrário dos refugiados, não cruzaram fronteiras internacionais e, por isso, não têm proteção do direito internacional do refúgio. Quem conseguiu atravessar as fronteiras enfrentou um cenário de fechamento progressivo: a Turquia, que já abrigava o maior número de refugiados do mundo, passou a conter o fluxo por meio de acordos como o firmado com a União Europeia em 2016, que financiou campos turcos em troca do controle das travessias pelo Egeu; o Líbano, sem campos formais e com infraestrutura precária, viu os sírios se tornarem cerca de um quarto de sua população, agravando tensões sectárias e econômicas preexistentes.

O exemplo mais emblemático desse destino regional é o campo de Zaatari, na Jordânia, que chegou a abrigar mais de 80 mil pessoas e se transformou na prática em uma cidade improvisada, com mercado, escolas e até economia própria, evidenciando como o deslocamento sírio, inicialmente tratado como emergência humanitária temporária, tornou-se uma situação prolongada e sem solução política à vista.

O Afeganistão

Território estratégico e montanhoso, invadido pela URSS (1979-1989) — quando os EUA armaram os mujahidin — e depois pelos EUA após o 11 de Setembro, contra o Talibã e a Al-Qaeda. Com a retirada americana em 2021, o Talibã retomou o poder, impondo severas restrições, sobretudo às mulheres, em meio a colapso econômico.

Aprofundar

O Afeganistão exemplifica como a geopolítica de um território pode ser moldada por sua posição estratégica e pela fragmentação interna: país sem saída para o mar, corredor entre Ásia Central, Sul da Ásia e Oriente Médio, com relevo montanhoso que historicamente dificultou a centralização do poder e transformou esse mosaico étnico, sobretudo pashtuns, tajiques, hazaras e uzbeques, em terreno fértil para senhores da guerra e lealdades tribais sobrepostas ao Estado formal. Esse vazio de autoridade foi instrumentalizado por potências externas durante a Guerra Fria e depois na chamada "Guerra ao Terror", e explica por que o Talibã — movimento pashtun de base religiosa e rural — conseguiu emergir nos anos 1990 e, após 2001, reconstruir sua insurgência com apoio em redes transnacionais e no tráfico de ópio, que financia parte de suas operações.